Ou seria Carlos Henrique Gouveia de Melo? O período pré-anistia gerou muitos nomes. Bem, o fato é que José Dirceu é um homem de muito poder. Um político que é tudo e não é nada ao mesmo tempo. Como o gancho pequeno de um guindaste gigantesco segurando de modo inexplicável um peso 220 milhões de vezes maior que ele. Mas não no sentido de sustentar, amparar. Segurando como quem não deseja que o país seja livre da influência cada vez mais clara dele nos últimos 30 anos de “democracia”.

Aí você me diz: Ah que exagero! Será mesmo possível um homem dedicar tantos anos de modo tão frio e obcecado a ponto de influenciar um país do tamanho do Brasil? Eu te respondo que é mais do que isso, meu amigo leitor. O Sr. Daniel trabalhou no solo da política. Fora da terra, uma planta que por muito tempo pareceu comum. Mas no subsolo (ou seria submundo?), há raízes fortes e profundas em todo território nacional.

José Dirceu se mudou de Passaquatro-MG para São Paulo ainda jovem. Ao se tornar aluno do curso de Direito da PUC, conheceu o comunismo através de alunos da universidade. Durante o primeiro ano de regime militar, foi vice-presidente do DCE – Diretório Nacional dos Estudantes, que já se auto intitulava representante de todos os estudantes universitários.

Por influência de colegas, se filiou ao Partido Comunista Brasileiro. Mas, acredite, a filiação só durou até o ano seguinte. Dirceu ajudou então na formação das DI-SP, dissidências organizadas que batiam de frente com o regime militar. O grupo do criminoso Carlos Marighella, Ação Libertadora Nacional – ALN, contava com a afeição de Dirceu. O PCB já adotava a linha um pouco mais pacífica.

Como dissidentes, tanto Marighella quanto Dirceu discordavam das estratégias nesse primeiro momento. Posteriormente bebeu da fonte de Marx, Engels e Lenin como munição intelectual estratégica. Conhecimento que logo Dirceu deseja por em prática, inspirado na Revolução Cubana de sua inspiração, Fidel Castro. Ele sempre desejou uma Revolução Brasileira liderada pelo povo e logo encontrou seu primeiro meio de poder: A UNE.

Sua fama de agitador se espalhava. Dirceu liderou uma ocupação da USP, vizinha à Universidade Mackenzie, cujos alunos eram simpáticos ao Regime Militar. O grupo de Dirceu protagonizou um sério confronto entre alunos comunistas e anticomunistas. E claro, Dirceu tem a cara marcada tanto por forças armadas oficiais como as paramilitares, posto que conseguiu escapar.

A UNE passa a ser considerada ilegal pelo governo militar com rumores de investimento estrangeiro em suas ações. Anos depois, Dirceu é eleito presidente da União Nacional dos Estudantes de São Paulo – UNE-SP. Em um congresso clandestino da UNE, em Ibiúna-SP, 706 pessoas foram presas, inclusive Dirceu. Mas Dirceu tinha amigos e, alguns meses depois, tem sua chance de sair da prisão. Seus amigos sequestraram o então embaixador americano Charles Elbrick e pediram a soltura dele e de 14 colegas das guerrilhas urbanas MR-8, ALN e o COLINA de uma ex-presidente do Brasil.

A troca é aceita, a vida do embaixador é poupada e o grupo deportado para o México. Dirceu e alguns amigos escolhem ir para Cuba. E, com uma recepção calorosa do alto escalão da ditadura comunista, Dirceu passa a ser Daniel, o homem de Cuba, o orgulho de Fidel.

Dirceu (logo abaixo do número “56”), em foto antes da deportação para o México |FOTO: Divulgação

Uma vez treinado intensivamente em espionagem e clandestinidade – como adquirir informações de pessoas influentes para matê-las na mão por exemplo – Daniel está pronto para um passo ainda mais sério em nome da ideologia. Daniel faz alterações no rosto por cirurgia plástica e começa um novo capítulo na sua estratégia para a Revolução Brasileira. Agora, ele está de volta ao Brasil com uma identidade falsa e um novo modus operandi,longe dos olhos e das páginas policiais.

Até meados de 1972, Daniel liderou o Movimento de Libertação Popular – MOLIPO, grupo financiado pelo governo de Cuba com alto treinamento em guerrilha urbana. Mas entre assaltos e ações de guerrilha, acabou sendo desbaratado em todos os pontos do Brasil onde agia. Daniel foi dos poucos que conseguiram escapar de serem pegos. Compreendendo que não seriam mais fortes que a repressão militar, Daniel retorna a Cuba onde se refugia e se aperfeiçoa por mais dois anos.

Devidamente planejado, Daniel se prepara e retorna ao Brasil com um novo nome. Sob a identidade falsa de Carlos Henrique Gouveia de Melo, se casa no Brasil, tem filhos e funda a própria loja de roupas em Cruzeiro Do Oeste – PR. Obstinado, Carlos Henrique viveu uma vida familiar de pai de família, longe de agitações políticas e observando através de notícias como caminhava a política brasileira sem se envolver, mas sem se esquecer do que o movia.

“Carlos Henrique Gouveia de Melo”, após a cirurgia plástica |FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal

Em 28 de agosto de 1979, o presidente João Figueiredo sancionou a Lei da Anistia. Carlos Henrique então se revela José Dirceu para a sua família e, imediatamente, começa uma busca por sobreviventes anistiados e por meios de retornar ao ativismo político. E convencido pelos amigos reencontrados, retorna a Cuba para desfazer a plástica no rosto e, de volta ao Brasil, retoma a vida pública em São Paulo usando livremente o nome de batismo.

Agora como José Dirceu, se torna um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Um partido feito de sindicalistas, guerrilheiros, intelectuais socialistas, e líderes católicos da Teologia da Libertação, corrente marxista. No PT, conhece Lula, com quem vai construindo uma aliança ideológica pragmática. Dirceu era articulado, um bom negociador, extremamente organizado, persuasivo. Lula era uma referência popular, era sanguíneo pela causa trabalhista e a imagem que o partido precisava. Um precisava do outro.

Com Lula, após retorno concedido pela anistia: Um precisa do outro |FOTO: Alfredo Rizzuti (Estadão Conteúdo)

Dirceu cresce no partido até se tornar presidente dele. É eleito deputado estadual, depois deputado federal e ferrenho opositor a Collor, Itamar Franco e FHC. A estratégia gramscista de aumento do próprio poder através do partido era a especialidade de José Dirceu. O partido já era enorme. José Dirceu fez o Lula. Com a ajuda publicitária de Duda Mendonça, Lula foi “criado” e respaldado pelo estrategista mais meticuloso que Cuba produziu. Lula assume a presidência em janeiro de 2003 e José Dirceu finalmente chega ao topo do poder como ministro chefe da Casa Civil.

Ministro Chefe da Casa Civil, no Governo Lula |FOTO: Evaristo Sá

José Dirceu era um jovem idealista e inconsequente. Cuba criou Daniel. Daniel liderou o MOLIPO, que fracassou. E como uma criação de Cuba, Daniel retornou às suas origens. Daniel criou o Carlos Henrique, mas nunca foi embora. Esteve sempre ali, aplicando tudo o que, como uma boa tutora, Cuba o ensinou. E mesmo quando José Dirceu retornou ao jogo político, sem Daniel ele não teria chegado onde chegou.

Sem a influência e inspiração promovida por Daniel, não haveriam tantos colegas de partido no meio jurídico, inclusive no STF. Sem Daniel, José Dirceu seria somente um jovem estudante em busca de propósito, cheio de ódio e envolvido com criminosos. E quanto às condenações e prisão de José Dirceu diante de toda a impunidade sistêmica judiciária no Brasil, a pergunta que fica é:

Quantos são os que Daniel tem nas mãos?

FOTO: Ivan Pacheco

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Sarah Alves é comentarista política, cristã, casada, poeta e uma otimista incorrigível quanto ao futuro do país! Twitter: @SarahComH2O

Uma resposta a “Sim, Sr. Daniel!”

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